domingo, 9 de dezembro de 2007

Educação para a cidadania em Platão - João Everton da Cruz

Este artigo tem por objeto demonstrar as contribuições de Platão no que se refere à educação e à formação do ser humano como cidadão consciente dos direitos e deveres, presente na obra "A República".
Platão nasceu em Atenas, por volta do ano 427 antes de Cristo. Pertencia a uma família da aristocracia cujos membros tomavam parte ativa na vida educacional dos cidadãos atenienses. A sua existência coincide com um período de profundas transformações na “Formação do Homem Grego”.
A formação daquele que seria o fundador da Academia foi marcada pelo encontro com Sócrates. O pensamento de Platão recebeu uma inegável influência do seu mestre. O ensinamento de Sócrates frisava que todo ser humano deveria estar baseado em conceitos claros e seguros. A influência socrática fez que o primado da formação em Platão se transformasse em primado da educação para a cidadania dos atenienses.
O termo cidadania vem de cidade, de onde procede, também, o termo política; o que significa dizer que a cidadania é o verdadeiro exercício do ser político do homem. Cidadania significa a convivência humana na cidade, ou seja, a convivência coletiva dos homens, onde cada componente tem a ver com os destinos do todo e de cada um. Se, de um lado, cidadania é tudo aquilo que caracteriza o homem, de outro lado, a ela é o compromisso de cada homem, na medida em que cabe a cada um a obrigação humana de exercê-la pela participação.
Cidadania, educação, participação e política não se dissociam. Não basta adentrar a ágora para fazer política, é necessário conhecer antes o que é a verdadeira política, e só depois de obtido esse conhecimento agir com coerência. Essa grande linha de força que percorre a reflexão platônica na República é que suscita uma inédita tematização do saber para a formação do cidadão ateniense. Daí afirmamos que, para Platão, não só a Academia, mas também a educação é um dos campos mais férteis para o exercício da cidadania.
Platão é um filósofo que teve muita influência sobre a educação grega. A grande indagação que se fazia na cultura grega era: que atitude tomar para se chegar à sabedoria da vida? A filosofia platônica devia, pois, ocupar-se com questões humanas, de sentido para existência. Platão estava em harmonia com Sócrates sobre a necessidade de se procurar uma nova base moral e cidadã para a vida. Platão interpretou Sócrates de forma vigorosa e até ultrapassou, de muito, sua doutrina ética, dando-lhe suporte gnosiológico e metafísico.
Com relação ao método, Platão aceitou e desenvolveu a dialética de Sócrates; ele a definiu como sendo um “contínuo discurso consigo mesmo”. Nesse sentido, a educação seria um processo do próprio educando, mediante o qual são dadas à luz as idéias que fecundam sua alma. O papel do educador consiste em promover no educando o processo de interiorização, graças ao qual ele pode sentir a presença das idéias.
Platão introduziu na Filosofia da Educação a idéia de que existem diferentes maneiras de conhecer ou graus de conhecimento, e esses graus se distinguem pela ausência ou presença do verdadeiro, pela ausência ou presença do falso. A realidade, para Platão, nada mais é do que a idéia que se realiza ou atualiza. Na educação deve-se levar em conta tanto o corpo como o espírito. Diz Platão: “A boa educação é que dá ao corpo e à alma toda beleza, toda perfeição de que são capazes.”
Alguns historiadores e especialistas, apoiados em juízos superficiais, chegam a rotular Platão como um idealista exacerbado, alheio à realidade concreta. Porém a análise de "A República" revela o seu autor como um profundo conhecedor do seu ambiente social e um primoroso crítico competente das estruturas educacionais do seu tempo.
O aprofundamento do estudo sobre educação e cidadania: Platão e a formação do cidadão na sociedade grega nos remetem àquilo com que muitas pessoas têm-se preocupado mundo afora, bem como aos seus limites. No tempo presente, continua a preocupação sobre a educação para a cidadania, sendo ainda um enorme enigma e, portanto, uma proposta de busca constante de entendimento para todo aquele que deseja descobrir o verdadeiro sentido do seu existir. O homem é bom enquanto bom cidadão.
Para Platão o indivíduo por si só não pode aproximar-se da perfeição; torna-se necessário o Estado e/ou a Comunidade Política. A Idéia do homem se realiza somente na comunidade. A cidadania platônica desemboca na vida política. Nessa direção, a filosofia da educação prestava enorme serviço à política ateniense, que era, por sua vez, um lugar concreto e o porquê da importância da filosofia. Educavam-se cidadãos para a Pólis, o que equivale a dizer, para a cidadania.
*João Everton da Cruz, filósofo e pós-graduado em Docência no Ensino Superior: novas linguagens e novas abordagens
jooevertoncruz@yahoo.com.br

 
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